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Especial Outubro Rosa: o amor e a luta por trás do câncer de mama

Não é apenas uma cor, é uma causa

19 de outubro de 2018

Câncer de mama. Outubro é o mês escolhido para abraçar a campanha mundial de combate contra o câncer de mama, mais conhecida como “Outubro Rosa”. Durante todo o período, organizações  promovem a conscientização e o debate acerca do tema, em alusão ao Dia Internacional de Combate ao Câncer de Mama (19 de outubro).

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A campanha representa uma das mais importantes ações pela saúde feminina. O objetivo é alertar as mulheres para a necessidade de exames preventivos, além de divulgar dados sobre a doença e lembrar a importância do diagnóstico precoce.

Prevenir é a melhor solução

“A melhor forma de tratamento para o câncer de mama é preveni-lo”, alerta o médico mastologista do Instituto do Câncer do Ceará (ICC), Olívio Feitosa. Sintomas como vermelhidão e inchaço nos seios, mamilo invertido de repente, saída de secreção com sangue pelo peito e retração da pele, são sinais que apontam um possível surgimento de câncer. “Ao encontrar uma alteração no formato da mama, ou uma parte mais avermelhada, encaminhamos para o mastologista com indicação de mamografia”.

Segundo a Sociedade Brasileira De Mastologia (SMB), a mamografia é indicada para mulheres a partir dos 40 anos, tendo que ser feita de 2 em 2 anos. “No ICC, fazemos o acompanhamento de mulheres que tem acima de 40 anos, além de exames complementares, como biópsia, mamografia e ultrassom”, afirma o médico.

Autoexame: o primeiro passo para o diagnóstico

Passo a passo do autoexame. (Foto: ICC)

Passo a passo do autoexame. (Foto: ICC)

 

Conhecer o próprio corpo é um ato a favor da saúde. O autoexame ou exame de toque é o pontapé inicial para se prevenir e descobrir a doença, se for o caso.”O autoexame é indicado desde sempre! Para se reconhecer e entender o formato da mama, para caso apareça um dos sintomas, a mulher recorra a um profissional. O diagnóstico definitivo é feito a partir da biópsia”, explica Olívio.

Histórico hereditário

Por conta da relação com questões genéticas, o surgimento do câncer de mama pode ser favorecido nos casos em que familiares já o tenham desenvolvido anteriormente. “O câncer de mama hereditário tem síndromes associadas. É variável. Depende da quantidade de casos na família, da idade que a outra pessoa desenvolveu. Se realmente tiver algum caso de câncer de mama, tireoide, ovário ou intestino, deve-se procurar um mastologista para fazer um rastreio genético”, orienta.

Hábitos saudáveis

Não há comprovação de que alguma prática interfira diretamente no surgimento do câncer de mama. No entanto, as alterações genéticas causadoras podem ser estimuladas por fatores externos. Segundo o mastologista, o uso de reposição hormonal inadequada, a menopausa precoce, excesso de peso e ingestão excessiva de gorduras ruins e bebida alcoólica podem favorecer a doença. “Orientamos a ter uma alimentação saudável, fazer exercícios físicos e sempre manter um peso equilibrado”, retifica.

O mastologista ainda desmente alguns mitos por trás do desenvolvimento da doença. O que NÃO aumenta os riscos do câncer de mama:

  • Sutiã com aspas
  • Desodorante antitranspirante
  • Conviver com pessoas que possuam a doença
Tratamento

Após descobrir o câncer, o primeiro passo é buscar o tratamento. A alternativa a ser aplicada é individual para cada caso, dependendo do grau de desenvolvimento do tumor. “Existe uma gama de fatores que influenciam. Às vezes, começamos com uma quimioterapia para fazer com o que o tumor murche, para depois fazer a cirurgia. Em casos avançados, fazemos quimio e radioterapia”, elenca o mastologista.

Cirurgia

“Um tumor mais inicial começamos pela cirurgia. Tentamos fazer a mais conservadora possível, sempre tentando atender o desejo estético da mulher. A cirurgia quadrante tira um pedaço da mama e depois faz a reconstrução, utilizando técnicas de cirurgia plástica. A mastectomia retira a mama toda da mulher, podendo colocar uma prótese no mesmo procedimento. É muito individualizado, depende de cada mulher, de cada mama”, esclarece Olívio.

Metástase

É denominado metástase quando o câncer sai do primeiro local de aparecimento, o sítio primário, e se desenvolve em outras partes do corpo. A metástase pode ocorrer quando as células cancerígenas, através da corrente sanguínea ou dos vasos linfáticos, se transportam para outras áreas do corpo. Segundo Olívio, quando acontece isso, há uma readequação do processo. “Em casos de metástase, não é possível fazer o controle local. O foco muda. O tratamento deixa de ser apenas voltado para a mama e passa a ser para o organismo inteiro”.

Caso Angelina Jolie
Angelina Jolie fez dupla mastectomia para prevenir câncer de mama. (Foto: Divulgação)

Angelina Jolie fez dupla mastectomia para prevenir câncer de mama. (Foto: Divulgação)

 

A atriz possui o que se chama “mutação no BRCA”. O BRCA é classificado como um dos componentes do genes e o processo de mutação fez com que o DNA de Angelina parasse de se reparar, aumentando os riscos para o desenvolvimento de câncer, principalmente nas mamas e nos ovários. Por conta da possibilidade, ela optou por fazer a dupla mastectomia, ou seja, a retirada das duas mamas. “Apesar de não ter a alteração genética, a Angelina fez o que chamamos de cirurgia profilática, no caso, operou antes de desenvolver o câncer de mama. Foi comprovado que isso pode diminuir em até 85% as chances de surgir a doença”, explica o mastologista.  

Acompanhamento psicológico é fundamental

A saúde mental também pode ser atingida em todo o processo. As adversidades do quadro podem desestabilizar o estado emocional da paciente. A psicóloga coordenadora do grupo de apoio Bem-Viver, parte do programa Guerreiros ICC, Isabel Cardoso, clarifica sobre o papel do suporte psicológico nesse momento. “O acompanhamento é importante desde a comunicação diagnóstica. O acolhimento e a escuta que fazemos é muito voltada para entender o impacto que aquilo causou na vida do sujeito e ajudar o paciente a entender o sofrimento. A psicologia serve como suporte, como apoio para clarificar tudo o que acontece com o emocional”.

ICC: casa e suporte

“O Guerreiros ICC é um Programa que visa colocar o paciente no centro do cuidado, seguindo os pilares do acolhimento, da socialização, da promoção da saúde, da educação, do empoderamento e do encantamento. No programa, o Grupo de Apoio Bem-Viver é uma das ações de humanização realizadas. O objetivo do grupo se dá dentro de uma perspectiva de resgate da autonomia e auto-regulação dos sujeitos, de incentivar o empoderamento e a possibilidade de se ter uma vida saudável e com qualidade apesar do câncer e durante o tratamento oncológico”, explica a psicóloga.

Segundo Isabel, a constância no acompanhamento é essencial para restaurar o emocional da paciente. “Após a remissão da doença, existem algumas fantasias em relação ao retorno desta. O processo psicoterápico também auxilia a enfrentar todas as dúvidas e questionamentos. É comum que o paciente fique em acompanhamento por até 5 anos após o tratamento”.

Ações e pessoas que inspiram

Em meio ao desgaste emocional e físico, há quem encontre uma luz. A ajuda pode vir dos mais variados locais, com tanto que seja genuína. Em alusão à campanha Outubro Rosa, o estúdio de tatuagem Libert Tattoo promove de forma gratuita, através da tatuagem, a reconstrução da aréola do seio de clientes que sofreram a mastectomia por meio da tatuagem definitiva. 

“A ideia de reconstrução foi uma maneira que pensei em ajudar as pessoas que sofrem com câncer, usando meu trabalho. Fui me envolvendo com a causa e querendo ajudar. O Outubro Rosa é simbólico, mas sempre faço”, explica o tatuador e proprietário do estúdio, Walber Lima. Segundo Walber, o processo é leve e tem duração de no máximo 30 minutos. “Usamos uma maquininha mais suave, é o mesmo procedimento da tatuagem. Como o local foi mudado e trocado a pele, a sensibilidade é bem baixa. Mas de qualquer forma passamos pomada. Também fazemos a revisão, dando a garantia de retoque”.

Karol fez a restauração da auréola após a mastectomia no Libert Tattoo. (Foto: Arquivo Pessoal Karol Viana)

Karol fez a restauração da auréola após a mastectomia no Libert Tattoo. (Foto: Arquivo Pessoal Karol Viana)

 

A supervisora de clínicas odontológicas, Karol Viana, foi uma das mulheres que participaram da ação e tiveram sua autoestima devolvida. “Já fazia tatuagens com o Walber. Depois que tive o câncer, falei com o médico que fez a minha cirurgia e ele me indicou fazer a tatuagem. Aquilo me despertou a vontade. Então fui ao estúdio, conheci o projeto e resolvi fazer”, conta.

Amor próprio renovado

Karol garante que o processo, além de ter feito bem para ela, serviu de inspiração para outras mulheres. “Fiz em 2014 mastectomia radical da mama direita, com remoção total dos linfonodos da axila. É um baque você fazer a remoção toda. Ter a possibilidade de reconstrução do mamilo faz a diferença, dá um conforto. Depois que fiz a tatuagem, fui até o Centro de Oncologia do hospital São Carlos e falei para as pessoas sobre a minha tatuagem. Muitas mulheres se interessaram e buscaram pelo procedimento”, afirma.

Karol inspira outras mulheres com sua luta e perseverança. (Foto: Arquivo Pessoal Karol Viana)

Karol inspira outras mulheres com sua luta e perseverança. (Foto: Arquivo Pessoal Karol Viana)

 

A ação de Walber é gratificante para todos os envolvidos. “Quando você se olha no espelho e vê o mamilo, aumenta a autoestima automaticamente. Antes eu tinha vergonha, tinha preconceito, então para mim foi muito bom, transformador. Sou muito grata a ele”, conta Karol. O tatuador incentiva a causa e também é motivado por ela. “Além da minha satisfação, eu sei que é muito importante para essas mulheres, elas se emocionam e eu também. Faço com muito carinho e, enquanto eu puder fazer, eu vou fazer”, garante.

Preconceito por trás da doença

Além das dificuldades com a própria doença, o meio social é tão agressivo quanto. “É um tratamento que ficamos realmente desfiguradas. Sem cabelo, sem sobrancelha. E ainda temos que viver com o preconceito. Apesar de ter vencido a doença, isso fica no subconsciente”, desabafa Karol.

Apoio da família é aliado ao acompanhamento psicológico. (Foto: Arquivo Pessoal Karol Viana)

Apoio da família é aliado ao acompanhamento psicológico. (Foto: Arquivo Pessoal Karol Viana)

Para ela, a atuação do acompanhamento psicológico é mais que necessária. “Quando começamos a quimioterapia, tem toda uma equipe para o acompanhamento. Algumas pessoas se apegam à religião e à família. Tem pessoas que se revoltam, não entendem porque aquilo aconteceu com elas, entram em depressão. O tratamento psicológico é essencial nesse momento”.

O preconceito influencia a presença dessas pessoas até mesmo no mercado de trabalho. “Depois que temos o câncer, para conseguir trabalhar é bem complicado. Não é todo mundo que quer empregar alguém com imunidade baixa. Quando eu ia para bancos, por exemplo, as pessoas saiam de perto. Elas achavam que eu por estar debilitada, iria contagiá-las. Ninguém tem a noção. É o momento que ficamos mais fragilizadas”, afirma Karol.

Apesar dos obstáculos, o amor prevalece e se faz presente na luta. Para Karol, o prazer de estar viva é maior do que todo o sufoco. “Eu me sinto muito privilegiada quando consigo passar meu testemunho para pessoas que estão fazendo tratamento. Quando você me olha hoje, não diz pelo que eu passei. Sou forte e procuro levar minha vida normalmente. Sempre existe uma luz no final do túnel!”, incentiva.

Serviço

Instituto do Câncer do Ceará – ICC
Rua Papi Júnior, 1222 – Rodolfo Teófilo 
Contato:  85 3288-4400
Instagram: @redeicc




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