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Boreout: quando o tédio no trabalho também adoece

Mais conhecido, o burnout é associado à sobrecarga e exaustão. Contudo, não é o único vilão da saúde mental. O boreout, fenômeno psicológico ainda pouco discutido, é cada vez mais presente nas relações de trabalho contemporâneas Nem sempre o sofrimento no trabalho vem do excesso de pressão. Em alguns casos, ele nasce do oposto: da […]

3 de abril de 2026

Mais conhecido, o burnout é associado à sobrecarga e exaustão. Contudo, não é o único vilão da saúde mental. O boreout, fenômeno psicológico ainda pouco discutido, é cada vez mais presente nas relações de trabalho contemporâneas
Nem sempre o sofrimento no trabalho vem do excesso de pressão. Em alguns casos, ele nasce do oposto: da falta de desafios, de sentido e de reconhecimento. Esse é o território do boreout, fenômeno psicológico ainda pouco discutido, mas cada vez mais presente nas relações de trabalho contemporâneas.

Segundo a professora de Psicologia da Estácio Brasília, Thayene Belo, o boreout está ligado à subcarga crônica e à sensação de estagnação profissional. “Os sinais mais comuns são apatia, desmotivação persistente, sensação de vazio ou inutilidade, queda de concentração, irritabilidade e desânimo”, explica. No comportamento, é frequente a tentativa de parecer ocupado: alongar tarefas, evitar novas demandas ou procrastinar, sem envolvimento real com o que se faz.

Isso não significa, automaticamente, adoecimento. A psicóloga, que é mestre em Saúde Coletiva (ENSP/Fiocruz), alerta que esses sinais só se tornam clinicamente relevantes quando são frequentes, prolongados no tempo e geram sofrimento significativo, afetando o desempenho profissional e a vida fora do trabalho.

Embora seja mais conhecido, o burnout que é associado à sobrecarga e exaustão não figura como o único vilão da saúde mental. “A falta de desafios e de propósito pode afetar a saúde mental tanto quanto o excesso de pressão, mas por mecanismos diferentes”, afirma Thayene. No boreout, a ausência de sentido e de crescimento leva à perda de engajamento, à desvalorização subjetiva do próprio trabalho e ao esvaziamento da identidade profissional.

A especialista destaca que não faz sentido hierarquizar o sofrimento. “Cada quadro precisa ser compreendido dentro do contexto, da duração e do impacto na vida do indivíduo”, pondera.

Não é sobre perfil; é contexto. Ao contrário do que se imagina, o boreout não está ligado a um “perfil frágil” de trabalhador. Ele costuma surgir em ambientes organizacionais marcados por tarefas repetitivas, pouca autonomia, escassas oportunidades de aprendizado, baixa mobilidade interna e subutilização de competências.

“É importante evitar responsabilizar exclusivamente o indivíduo por um sofrimento que, muitas vezes, nasce da forma como o trabalho é organizado”, reforça a professora.

Impactos na autoestima

Quando se prolonga, o boreout pode corroer a autoestima e a percepção de valor profissional. A pessoa passa a se sentir invisível, inútil ou desperdiçando seu potencial. “Esse processo é silencioso e perigoso, porque o indivíduo tende a internalizar a estagnação como falha pessoal, quando, na verdade, ela costuma ser consequência de um contexto pouco estimulante”, explica Thayene Belo.

Apesar de a rotina parecer “leve” por fora, o desgaste interno pode ser intenso. Entre os sintomas físicos mais comuns, estão fadiga persistente, alterações do sono, dores de cabeça, tensão muscular, queixas gastrointestinais e sensação de corpo pesado, especialmente ao se aproximar do trabalho.

No campo psicológico, podem surgir humor deprimido, ansiedade, irritabilidade, apatia emocional e redução do senso de autoeficácia; aquela sensação de “não faço diferença”. O que diferencia desconfortos cotidianos de algo clínico, reforça a psicóloga, é a persistência e o prejuízo na vida da pessoa, além da necessidade de considerar outros diagnósticos possíveis.

Tédio passageiro ou boreout: como saber?

Momentos de desmotivação fazem parte da vida profissional e costumam melhorar com descanso ou mudanças pontuais. No boreout, porém, a sensação de estagnação e perda de sentido é crônica, se repete ao longo do tempo e começa a afetar o bem-estar emocional e a vida pessoal.“Nem todo tédio é adoecimento, mas quando ele se torna persistente e incapacitante, merece escuta qualificada”, atesta Belo.

O debate sobre o boreout amplia o olhar sobre a relação entre trabalho, propósito e saúde mental. Para Thayene Belo, o desafio está no equilíbrio: nem banalizar o sofrimento, nem patologizar toda insatisfação. “Cuidar da saúde mental no trabalho passa por compreender os contextos organizacionais e construir ambientes mais humanos, desafiadores e significativos”, afirma a especialista. Ela conclui com um lembrete essencial: “Nem todo mal-estar é doença, mas todo mal-estar merece escuta qualificada.”




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